Plasma frio na odontologia: antisséptico sem calor que agiliza a clínica
Em um cenário clínico que busca ser mais preciso, rápido e previsível, o plasma frio (CAP, do inglês cold atmospheric plasma) desponta como um aliado versátil. Ele combina ação antimicrobiana, modulação de cicatrização e ativação de superfícies — sem aquecer tecidos moles ou duros. Resultado: menos contaminação, melhor preparo para adesão e cadeias de tratamento mais enxutas.
O que é e por que importa
Plasma frio é um estado da matéria gerado por descargas elétricas em gás ambiente, produzindo um “sopro” rico em espécies reativas de oxigênio e nitrogênio (RONS). Na prática, essas espécies quebram a organização do biofilme, danificam membranas e DNA de microrganismos e aumentam a energia superficial de materiais e tecidos. Diferente de lasers e cautérios, o CAP atua em baixa temperatura, preservando estruturas adjacentes e reduzindo desconforto.
Onde o plasma frio se encaixa na rotina
- Dentística restauradora: descontaminação de cavidades após remoção de cárie e priming de esmalte/dentina para melhorar molhabilidade antes do adesivo. Em cerâmicas e zircônia, o CAP pode complementar jateamento e silanização, favorecendo a adesão.
- Periodontia e peri-implantar: redução microbiana em bolsas rasas e moderadas após raspagem, apoio à terapia de mucosite/peri-implantite como coadjuvante e otimização do leito para enxertos moles.
- Cirurgia oral: preparação de bordas antes de sutura e higiene do leito pós-curetagem, visando ambiente mais favorável à cicatrização.
- Estomatologia: apoio em lesões ulceradas recorrentes (aftas) e herpes labial na fase inicial, como estratégia para reduzir carga viral e desconforto, sempre integrado ao manejo padrão.
- Prótese e laboratório clínico: ativação de superfície de resinas e metais antes de cimentações provisórias/definitivas, e higienização adicional de peças recém-try-in.
Como aplicar: protocolos práticos
Existem dois arranjos comuns de dispositivos:
- DBD (descarga por barreira dielétrica): o eletrodo é recoberto por material isolante e o plasma se forma próximo ao tecido/superfície, geralmente sem jato visível.
- Plasma jet: um jato finíssimo e frio sai da ponta, facilitando acesso em áreas estreitas.
Passo a passo sugerido por indicação (adapte ao seu equipamento e ao protocolo do fabricante):
- Cavidade restauradora
- Isolamento relativo ou absoluto e remoção mecânica/química de tecido cariado.
- Secagem suave; manter dentina levemente úmida, se o sistema adesivo assim exigir.
- Aplicar CAP por 30–60 segundos por área, a 5–10 mm de distância, com movimentos lentos.
- Proceder com condicionamento/adesivo e restauração.
- Bolsa periodontal ou mucosite
- Debridamento mecânico criterioso (ultrassom/curetas).
- Irrigação e secagem relativa.
- CAP por 30–90 segundos por sítio, evitando contato direto e mantendo ponteira em ângulo que favoreça a penetração no sulco sem trauma.
- Ativação de cerâmicas/metal/resina
- Limpeza convencional (álcool isopropílico/ultrassom/jet, conforme material).
- Aplicar CAP por 20–40 segundos na superfície interna da peça.
- Prosseguir com silano/primer e cimento, conforme protocolo do material.
- Bordas cirúrgicas
- Hemostasia e irrigação, conforme necessidade.
- CAP por 20–40 segundos por área antes de suturar.
Segurança e boas práticas
- Proteção ocular para equipe e paciente, especialmente com plasma jet visível.
- Controle de exposição: respeite tempos e distâncias do fabricante; mais tempo não significa melhor resultado.
- Ventilação: use sucção e mantenha renovação de ar adequada.
- Materiais e implantes: o CAP é, em geral, bem tolerado por superfícies inertes, mas siga instruções do fabricante do implante/prótese quanto a contatos e tempos.
- Contraindicações relativas: feridas com sangramento ativo, pacientes extremamente sensíveis ao fluxo de ar frio, e áreas com tecidos muito desidratados. Em gestantes e portadores de dispositivos eletrônicos, adote prudência e valide com o fabricante.
- Regulatório: utilize equipamentos com certificações vigentes (ex.: Anvisa) e manutenção em dia.
Limitações: o que o CAP não faz
- Não substitui remoção mecânica de tecido cariado, raspagem periodontal ou preparo/correção oclusal.
- Não elimina a necessidade de isolamento, hemostasia ou protocolos adesivos bem executados.
- Não é panaceia: os benefícios dependem de indicação correta, tempo de exposição e integração ao fluxo.
Escolha do equipamento e integração ao fluxo
Ao avaliar um dispositivo, observe:
- Geometria da ponteira e facilidade de acesso em áreas posteriores e subgengivais.
- Faixa de potência/tempo com presets clínicos claros por indicação.
- Descarte/esterilização de ponteiras e custo por uso.
- Curva de aprendizado: treinamento objetivo e suporte técnico são diferenciais.
Para que o CAP renda na prática, padronize: quando acionar, quem prepara a sala, como registrar no prontuário e quais desfechos acompanhar. Alguns indicadores úteis:
- Dentística: sensibilidade pós-operatória, falhas adesivas em 6–12 meses.
- Periodontia: profundidade de sondagem, sangramento à sondagem e halitose clínica em 4–8 semanas.
- Cirurgia: tempo de cicatrização clínica e intercorrências (supuração, dor, reabordagem).
Evidência em evolução, uso responsável
A literatura tem mostrado redução de Streptococcus mutans e Enterococcus faecalis em modelos in vitro e resultados promissores em descontaminação de bolsas e melhoria da adesão em diferentes substratos. Em humanos, os estudos vêm crescendo, mas ainda exigem padronização de parâmetros e acompanhamento de longo prazo. Use o CAP como coadjuvante baseado em evidências, documente seus resultados e ajuste protocolos conforme a resposta clínica.
Fechando o ciclo: comunicação e registro
Explique ao paciente, em linguagem simples, que o plasma frio ajuda a higienizar melhor a área tratada e a preparar o dente/prótese, sem queimar ou doer. Registre indicação, tempo de exposição, ponteira e resposta imediata. Essa transparência educa e diferencia sua clínica.
Dica final: comece por um piloto de 30 dias em duas frentes (ex.: cavidades Classe II e bolsas moderadas), padronize tempos/distâncias, colete indicadores simples e reavalie. A experiência local bem medida é o melhor guia para expansão segura.
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