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Endodontia sem adivinhação: mapeamento 3D com IA revela o canal real

Endodontia sem adivinhação: mapeamento 3D com IA revela o canal real
Editora Sia

Quem já abriu um molar superior convicto de que tudo estava sob controle e, minutos depois, percebeu um canal extra invisível à radiografia bidimensional, sabe o valor da previsibilidade. A combinação de tomografia de feixe cônico (CBCT), segmentação e inteligência artificial (IA) trouxe à endodontia um novo patamar: mapear o sistema de canais em 3D antes de tocar o dente. Menos tentativa e erro, mais decisões objetivas.

Por que mapear em 3D antes de intervir

  • Localização de canais adicionais: MB2 em molares superiores, canais acessórios e istmos deixam de ser hipóteses e passam a ser estruturas visíveis no modelo 3D.
  • Curvaturas e riscos: medir ângulo e raio de curvatura ajuda a decidir sequência de instrumentos, torque e amplitude, reduzindo fraturas e desvios.
  • Acesso conservador: planejar o trajeto até a câmara e os canais com base na anatomia real evita desgastes desnecessários e preserva estrutura.
  • Retratamentos mais seguros: identificar cones de guta-percha residuais, material obturador lateralizado e trajetos iatrogênicos muda a estratégia antes do primeiro movimento.
  • Proximidades críticas: sinus maxilar, cortical fina e reabsorções são mapeadas, evitando acidentes, comunicações e perfurações.

Do exame à decisão: o que compõe o mapeamento inteligente

  1. Aquisição do CBCT: para endodontia, prefira FOV pequeno e voxel fino (até 0,125 mm quando possível). O objetivo é detalhar o dente de interesse com a menor dose necessária, evitando incluir estruturas desnecessárias.
  2. Pré-processamento: reduza artefatos de metal com algoritmos do próprio equipamento e ajuste janela/nível de cinza para evidenciar dentina e espaço do canal. Quanto melhor o preparo da imagem, mais limpa a segmentação.
  3. Segmentação com IA: ferramentas atuais aceleram a detecção do espaço do canal e do contorno radicular. O fluxo ideal é semiautomático: a IA propõe, o clínico revisa e corrige onde for preciso.
  4. Extração de métricas: ângulo de curvatura (método de Schneider), raio da curva, diâmetro apical estimado e comprimento de trabalho prévio orientam seleção de instrumentos e pontos de verificação intraoperatória.
  5. Guia virtual de acesso: com o modelo 3D, simula-se o trajeto de menor risco até a câmara, prevendo paredes a preservar e pontos de risco. Em casos complexos, é possível exportar para impressão 3D de um guia.
  6. Integração ao prontuário e comunicação: imagens chaves e vídeos de navegação no volume apoiam o consentimento e a compreensão do paciente sobre riscos e benefícios.

Protocolo prático que cabe na rotina

Incorporar o mapeamento 3D não precisa travar a agenda. Com organização, o tempo adicional vira minutos que economizam dezenas depois.

  • Triagem: indique CBCT para dentes com suspeita de canal adicional, calcificações, retratamento, curvaturas acentuadas, reabsorções ou proximidades anatômicas críticas.
  • Checklist de aquisição: verifique FOV adequado, estabilização do paciente e remoção de objetos metálicos móveis. Registre parâmetros utilizados para reprodutibilidade.
  • Leitura dirigida: percorra as três direções (axial, coronal e sagital) e valide a segmentação em cada plano. Rotacione o 3D para confirmar a continuidade dos canais e localizar istmos.
  • Plano de ação: defina acesso, sequência de instrumentação e pontos de controle (por exemplo: recapitulação em curvatura principal, confirmação do glide path antes de ampliar).
  • Documente: salve cortes-chave e o modelo 3D com anotações. Use-os no diálogo com o paciente e para auditoria clínica futura.

Segurança, limites e escolhas conscientes

CBCT não substitui o julgamento clínico. É um apoio robusto, mas exige critérios:

  • Dose e benefício: use parâmetros de baixa dose quando tecnicamente viáveis e sempre com justificativa clínica. Em muitos casos endodônticos, o ganho diagnóstico supera a exposição adicional.
  • Resolução versus ruído: voxel menor significa mais detalhe, porém mais ruído. Ajuste filtro e janelamento para preservar contraste sem mascarar estruturas finas.
  • Artefatos: restaurações metálicas e pinos criam faixas e obscurecem detalhes. Nesses casos, a segmentação semiautomática com correções manuais é especialmente importante.
  • IA como copiloto: algoritmos aceleram e padronizam, mas o endodontista valida. Erros de over/under-segmentation acontecem e devem ser corrigidos.

Quando o 3D muda a conduta de verdade

  • MB2 presente, acesso preservado: visualizar o trajeto do MB2 antes do acesso evita ampliar desnecessariamente o assoalho para “procurar” o canal.
  • Calcificação severa: identificar o último trecho permeável direciona a criação do glide path e reduz o risco de degraus.
  • Retratamento com instrumento fraturado: mapear posição e inclinação do fragmento ajuda a decidir entre remoção, bypass ou cirurgia.
  • Reabsorção externa/interna: delimitar extensão e parede remanescente evita perfurações iatrogênicas e sustenta a escolha de materiais e técnicas de selamento.
  • Risco anatômico: proximidade do ápice com o seio maxilar ou com a cortical vestibular/lingual ajusta o plano de irrigação e a extensão da instrumentação.

Como começar agora, sem complicar

  1. Escolha ferramentas acessíveis: utilize um visualizador DICOM com recursos de segmentação e mensuração. Muitos já oferecem fluxos semiautomáticos intuitivos.
  2. Padronize um mini-protocolo: defina parâmetros de aquisição, sequência de leitura e itens que sempre registra (curvatura, número de canais, proximidades).
  3. Pratique em casos simples: molar superior com MB2 é um bom início. Ganhe fluidez no fluxo e, depois, avance para retratamentos e calcificações.
  4. Crie uma biblioteca: salve casos com resumo anatômico e decisões tomadas. Em poucas semanas, você terá um repositório que acelera o raciocínio e treina a equipe.
  5. Explique melhor ao paciente: um vídeo curto do modelo 3D percorre o trajeto dos canais e mostra por que aquele caso demanda mais tempo, cuidado e investimento. Confiança nasce de clareza.

O próximo passo da endodontia cotidiana

O mapeamento 3D com IA não é futurismo; é uma extensão lógica da radiologia odontológica aplicada à endodontia. Ele reduz incertezas, guia escolhas e documenta sua precisão. Em uma rotina pressionada por tempo e por expectativa de resultados, ver antes de fazer é a vantagem competitiva mais ética que existe.

Para que esse cuidado chegue ao paciente com menos atrito, conte com um software que acompanha sua prática do diagnóstico à fidelização. O Siodonto integra imagens ao prontuário, organiza fluxos e ainda oferece um chatbot inteligente para atender 24/7 e um funil de vendas que nutre leads até a consulta marcada. É tecnologia que simplifica o dia a dia e transforma cada contato em oportunidade de cuidado — e de crescimento sustentável para a clínica.

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